Interpretar corretamente uma imagem é apenas metade do trabalho de um radiologista diante de um achado suspeito. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues destaca que a outra metade, com frequência menos discutida na formação médica tradicional, está em como essa informação chega até a paciente, seja diretamente, seja através do médico solicitante do exame, já que a mesma informação técnica pode gerar reações completamente diferentes dependendo de como é comunicada.
Um laudo redigido com termos técnicos corretos, mas sem qualquer contextualização, pode transformar uma probabilidade estatisticamente baixa em pânico imediato, enquanto uma comunicação cuidadosa, sem perder rigor científico, ajuda a paciente a compreender exatamente o que aquele resultado significa e quais são os próximos passos recomendados. Entender por que essa comunicação exige tanto preparo técnico quanto sensibilidade humana ajuda a explicar um aspecto do cuidado em saúde que raramente aparece nas discussões sobre qualidade em radiologia.
Por que a mesma informação técnica pode ser recebida de formas tão diferentes?
Um resultado classificado como categoria quatro A no sistema BI-RADS, por exemplo, representa risco de malignidade entre 2% e 10%, uma probabilidade estatisticamente baixa de câncer. Ainda assim, quando essa informação chega à paciente apenas como “achado suspeito que requer biópsia”, sem qualquer explicação sobre essa faixa de probabilidade, é natural que a mente da paciente preencha essa lacuna com o cenário mais assustador possível, muitas vezes bem distante da realidade estatística real daquele achado específico.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, esse tipo de lacuna de comunicação não decorre de má intenção de ninguém envolvido no processo, mas de uma cultura médica historicamente mais focada na precisão técnica do laudo do que na experiência de quem vai recebê-lo. Para ele, comunicar bem um resultado não significa suavizar a informação a ponto de distorcer a realidade clínica, mas apresentá-la de forma que a paciente compreenda tanto a gravidade real quanto a proporção adequada dessa gravidade.
Existe alguma estrutura ou método que ajude a conduzir essa conversa de forma mais cuidadosa?
Protocolos de comunicação de más notícias, desenvolvidos originalmente para outras especialidades médicas, como a oncologia clínica, também vêm sendo adaptados para a realidade da radiologia, especialmente em serviços onde o próprio radiologista, e não apenas o médico solicitante, conversa diretamente com a paciente sobre um achado suspeito. Esses protocolos costumam recomendar avaliar primeiro o que a paciente já sabe ou imagina sobre a situação, entregar a informação de forma clara e em etapas, sem excesso de jargão técnico, e verificar ativamente se a mensagem foi compreendida da forma pretendida.

Na avaliação, Dr. Vinicius Rodrigues acredita que adaptar esse tipo de estrutura para o contexto específico da radiologia mamária exige equilibrar honestidade sobre a necessidade de investigação adicional com a proporção estatística real de cada categoria de achado, evitando tanto a frieza de um laudo puramente técnico quanto o extremo oposto de minimizar informação que a paciente tem todo direito de conhecer com precisão.
O que muda quando essa comunicação acontece por telefone, mensagem de texto ou presencialmente?
O canal de comunicação escolhido para transmitir um resultado que exige investigação adicional influencia diretamente a experiência da paciente, já que uma mensagem de texto ou uma ligação breve, sem espaço para perguntas imediatas, tende a deixar mais lacunas de interpretação do que uma conversa presencial ou por vídeo, na qual a paciente pode esclarecer dúvidas no mesmo momento em que recebe a informação. Ainda assim, a realidade logística de muitos serviços de saúde nem sempre permite esse tipo de conversa mais extensa para cada resultado.
Para o ex-secretário de Saúde, Dr. Vinicius Rodrigues, esse é um desafio real de organização de serviço, especialmente dentro do sistema público de saúde, em que o volume de exames realizados muitas vezes não permite dedicar tempo individual extenso para cada resultado entregue. Ele frisa que protocolos de comunicação padronizados, mesmo quando aplicados por telefone, podem incorporar elementos básicos de acolhimento sem exigir tempo desproporcional de cada profissional envolvido nesse processo.
Por que essa comunicação cuidadosa também beneficia diretamente a adesão da paciente ao acompanhamento recomendado?
Pacientes que compreendem claramente por que determinado exame complementar foi recomendado e qual é a probabilidade real associada ao achado encontrado tendem a comparecer com mais regularidade às consultas de retorno e investigações adicionais do que aquelas que recebem apenas uma instrução técnica sem contexto suficiente. Esse dado reforça que investir em comunicação clara não é apenas uma questão de acolhimento humano, mas também de eficácia prática do próprio protocolo de investigação recomendado.
O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues reforça que qualidade em radiologia mamária deveria incluir, como componente formal de avaliação, a qualidade da comunicação entregue à paciente, e não apenas a precisão técnica da interpretação da imagem, já que um diagnóstico correto perde parte de seu valor se a paciente não compreende adequadamente o que fazer com essa informação em seguida.
Comunicar um resultado suspeito de mamografia é, ao mesmo tempo, um ato técnico e um ato de cuidado humano, e tratar essas duas dimensões como inseparáveis, e não como tarefas concorrentes, é o que diferencia um serviço de radiologia verdadeiramente completo. Investir nessa habilidade, tanto quanto se investe em equipamento e treinamento técnico de interpretação, deveria ocupar espaço central em qualquer discussão sobre qualidade em diagnóstico por imagem.



