Por muito tempo, o músculo esquelético foi entendido apenas como um tecido responsável por gerar movimento e força. A ciência recente revelou uma função muito menos óbvia e igualmente relevante: durante o exercício, o músculo libera substâncias chamadas miocinas, que atuam como mensageiros químicos capazes de se comunicar diretamente com o sistema imunológico e influenciar processos inflamatórios em todo o corpo. Lucas Peralles, nutricionista esportivo, demonstra que essa descoberta amplia significativamente o entendimento sobre por que o exercício físico regular protege contra tantas doenças diferentes.
Essa comunicação entre músculo e sistema imunológico ajuda a explicar um fenômeno intrigante observado há décadas por pesquisadores: pessoas fisicamente ativas apresentam menor incidência de diversas doenças relacionadas à inflamação crônica, desde condições metabólicas até certos tipos de câncer, mesmo quando outros fatores de risco são levados em consideração. As miocinas parecem ser parte importante da explicação por trás dessa proteção.
O que são miocinas e como elas atuam no corpo?
Miocinas são pequenas proteínas liberadas pelo músculo esquelético durante a contração muscular, especialmente durante o exercício físico. Uma vez na corrente sanguínea, essas substâncias podem atuar em órgãos distantes do próprio músculo, incluindo o fígado, o tecido adiposo e células do sistema imunológico, modulando processos inflamatórios e metabólicos ao longo de todo o organismo.
Lucas Peralles informa que uma das miocinas mais estudadas, chamada interleucina seis, apresenta um comportamento curioso: quando liberada de forma aguda durante o exercício, atua reduzindo processos inflamatórios no corpo, enquanto a mesma substância, produzida cronicamente por tecido adiposo em excesso, está associada ao aumento da inflamação sistêmica. Essa dualidade ilustra como o contexto fisiológico determina se uma mesma molécula protege ou prejudica o organismo.
A ligação entre exercício, inflamação crônica e doenças metabólicas
A inflamação crônica de baixo grau está associada a diversas condições de saúde, incluindo resistência à insulina, doenças cardiovasculares e certos tipos de câncer. Pesquisas publicadas em periódicos como o Journal of the International Society of Sports Nutrition sugerem que a prática regular de exercício físico, através da liberação repetida de miocinas anti-inflamatórias, contribui para reduzir esse estado inflamatório basal ao longo do tempo.

Dentre o que observa Lucas Peralles, essa informação reforça a importância do exercício físico como ferramenta terapêutica, e não apenas estética. Na prática desenvolvida na Clínica Peralles, muitos pacientes buscam atividade física exclusivamente com o objetivo de emagrecimento, sem perceber que os benefícios relacionados à saúde imunológica e à redução de processos inflamatórios costumam ser igualmente, ou até mais, relevantes para a saúde a longo prazo.
Tipo de exercício e resposta imunológica
Nem todo tipo de exercício produz a mesma resposta em termos de liberação de miocinas. Evidências sugerem que tanto exercícios aeróbicos quanto treino de força contribuem para essa comunicação química benéfica, mas exercícios extremamente intensos ou prolongados, sem recuperação adequada, podem temporariamente elevar marcadores inflamatórios, revertendo parcialmente o efeito protetor esperado.
Para Lucas Peralles, esse equilíbrio reforça um princípio recorrente dentro do Método LP: mais não significa necessariamente melhor quando se trata de exercício físico. Ele destaca que treinos excessivos, sem tempo adequado de recuperação, podem comprometer justamente os benefícios imunológicos que motivam boa parte das pessoas a se exercitarem regularmente, tornando o descanso uma parte tão estratégica do processo quanto o próprio treino.
Implicações práticas para quem busca saúde a longo prazo
Entender o papel das miocinas ajuda a justificar, com base fisiológica sólida, recomendações que antes pareciam apenas genéricas, como a importância de manter atividade física regular mesmo sem objetivos estéticos específicos. Essa comunicação constante entre músculo e sistema imunológico representa mais uma camada de evidência sobre por que o sedentarismo está associado a tantos riscos de saúde diferentes.
De acordo com Lucas Peralles, essa descoberta também reforça a importância da preservação de massa muscular ao longo da vida, já que um músculo ativo e bem estimulado continua produzindo esses mensageiros protetores de forma consistente, enquanto a perda progressiva de massa muscular reduz naturalmente essa capacidade de comunicação benéfica com o restante do corpo.
O estudo das miocinas ainda avança rapidamente dentro da fisiologia do exercício, revelando camadas cada vez mais complexas sobre como o corpo humano se beneficia da atividade física regular. Cada nova descoberta nessa área reforça que o exercício não deveria ser tratado apenas como ferramenta de emagrecimento, mas como intervenção ampla de saúde, capaz de atuar simultaneamente sobre metabolismo, inflamação e sistema imunológico.
Reconhecer essa dimensão menos óbvia do exercício físico ajuda a construir uma motivação mais robusta e duradoura para manter uma rotina ativa, que vai muito além do espelho ou da balança, e se conecta diretamente à capacidade do corpo de se proteger de doenças ao longo de toda a vida.



